24 de agosto de 2016

Dica de livro: Muito como um rei

#EspelhoTemporada‬2016
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“O Olodum dignificava o brega, dava uma direção ao mangue, era o que eu sentia. O cotidiano era sempre um inferno de violência e sexo e sangue quente escorrendo entre as pedras e mau cheiro de merda e urina. Fumaça de lixo queimando dentro das carcaças dos casarões em ruínas, barulhos de bolas de sinuca batendo, cachaça sendo jogada na rua pro santo. Bitelo foi morto pelo melhor amigo com golpes de faca de cozinha na hora de dividir um roubo, Dico foi preso com maconha na subida do São Miguel e apanhou tanto que teve o baço estourado por um pisão de coturno, Clarinda perdeu um dedo na briga com Lídia Brondi, a travesti, que tava pegando o marido dela... vixe... Dois-Mundo bateu em dois polícia que tavam arregando a mesa de bicho dele e andava meio sumido da área”.

À guisa de epígrafe, transcrevo o trecho do conto “Infanto Juvenil V”, do livro em questão, porque é, também, o que sinto. É o que me toca, o que me recorda, me leva a infâncias na longínqua Rua da Palha e em outros lugares escrotos onde vivi. E é o que sinto ao ler “Muito como um Rei”, do escritor Fábio Mandingo. Quem não teve ou não passou por uma situação limite, daquelas que podem decidir o futuro entre céu e inferno? Mas da forma como Fábio escreve, a gente, mesmo que não tenha sentido, passa a sentir, pela simplicidade da linguagem, em que personagens e narrador demonstram habitar o mesmo limbo, a mesma atmosfera. A verossimilhança não deixa dúvidas, não permite questionamentos, só experimentar, ir junto ao fluxo de pensamento e ter vertigens, tantas quantas aguentar.

Perebas, perebas e mais perebas, de todos os tipos, com pus, lambida de cachorro, cutucada, arrancada com as unhas, e petróleo grudado na pele, após “caídas” nas águas fétidas da Praia de Cantagalo. Memórias, ancestralidades, lembranças, realidades que marcaram muitas pernas e mentes de quem por ali passou, quem viveu aquela realidade mais parecida com o limiar do inferno. Mas nem sempre a dor e a miséria são absolutas. 

No meio de todo esse assombro, tinha poesia: o sol escolhia descer primeiro na Igreja dos Alagados, depois lambia as pedras do Bate Estaca; e reflexão filosófica: “amor, igreja, polícia, gente rica, é tudo a mesma merda, tudo enganação”...

As memórias são ativadas durante toda a leitura do livro, é o cheiro de castanha assando no quintal, cascudos dados e tomados, meninos mais velhos chamando os menores de “meu gado”, e as arruaças e as brincadeiras de rua, as quedas na água da maré, ver televisão na casa da única vizinha onde havia um aparelho preto e branco (com plástico azul pra parecer colorida), chão de cimento vermelho, touca de meia-calça na cabeça de todas as mulheres, que não tiravam pra nada, filhos de mulheres e homens cachaceiros, tubaína, as festas de debutantes de “boa família”, no Clube Itapagipe, onde a personagem do conto não podia entrar por não possuir carteira de sócio... e a conga no pé, pra escola, pra festa, pra feira, pra onde quer que tivesse que ir, inclusive para festa de aniversário; jogo de botão, os namoros escondidos em que a visitante do interior beijava a rua inteira, acender palito de fósforo no cimento, saco de aniagem, acordar de madrugada quando a água chegava, limusine de quarenta lugares, agressão policial e roleta russa com a cara enfiada na areia. 

E a dor e a miséria e a falta de horizonte se aniquilam diante do grito “Sou artista, sou artista”. E, como “Todo Menino é um Rei”, a personagem também se declara rei, declara seu milênio, e, apesar dos apelidos de macarrão 18, tripa, lombriga, vara de tirar caju, a fome que lhe alimenta é a fome de mundo, que lhe moveu à vitória de ter tudo, Muito como um Rei.

Texto retirado na íntegra daqui
Fonte:Galinha Pulando 

20 de agosto de 2016

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17 de agosto de 2016

Dica de livro: A ilha da chuva e do vento


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A chuva e o vento do título sugerem a brisa e as tempestades que desabam sobre os ombros da heroína, Télumée Milagre, uma negra de Guadalupe. Na primeira parte do livro ela conta sua vida, narrando as batalhas de três gerações de mulheres a partir da bisavó Minerve, uma ex-escrava. Jovem, Télumée trabalha para os brancos e depois junta-se ao negro Elie, paixão da infância. É feliz e infeliz até a loucura. Depois da morte da avó, por quem foi criada, muda-se, trabalha nos canaviais e junta-se a Amboise, negro que, por ser combativo, é aniquilado. Enfim, ela se toma uma negra que não se deixa embaraçar pela vida, como sua avó, com quem aprendera a navegar através, conservando-se enraizada à terra e amando viver. Já anciã, Télumée contempla, tranquila, de seu jardim, as modificações que seu século introduziu.

Surpreendente e belo, o romance é escrito numa linguagem ritmada e poética. Marcante a cada frase, as imagens coloridas impregnadas de aromas de ervas desenham uma paisagem do Caribe que os turistas nunca viram. Uma paisagem onde, não obstante a desesperança imposta pela pobreza e pelo racismo, os homens e as mulheres se apaixonam, defendem-se das forças da destruição e recriam o mundo a seu modo e segundo sua tradição.

Por Norma Telles 
Texto retirado na íntegra daqui

13 de agosto de 2016

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10 de agosto de 2016

Dica de livro: Um grão de trigo

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Publicado em 1967, este romance magistral trata do difícil processo de independência do Quênia, e das dúvidas e lealdades que cada um leva consigo. Mugo é um homem solitário, tido como herói pelos habitantes da aldeia de Thabai. Ele atuou ao lado de Kihika, mártir da luta contra o domínio inglês e, durante o tempo em que ficou preso, nunca delatou seus companheiros, nem mesmo sob tortura. Com a chegada do dia da independência, ex-ativistas planejam expor e executar o suposto traidor que levou Kihika à morte. Sombras começam então a pairar sobre todos. Um grão de trigo narra eventos marcantes da história africana, com personagens humanos, hesitantes e passionais, mas capazes de grandes feitos.


Editora: Alfaguara Brasil
Autor(a): Negugi Wa Thiongo

6 de agosto de 2016

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3 de agosto de 2016

Dica de livro: O ensino de filosofia e a Lei 10.639

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A filosofia é privativa da cultura ocidental ou é uma criação do pensamento humano em geral?
As culturas africanas e afrodiaspóricas são relevantes para o entendimento da filosofia?

Existe filosofia africana e/ou filosofia afro-brasileira? Em caso afirmativo, como elas podem contribuir para o entendimento das relações étnico-raciais?

Como o(a) professor(a) pode incluir a filosofia africana e a afrodiaspórica no currículo de Filosofia do ensino médio?

Como formar um(a) professor(a) de Filosofia capaz de fazer essa conexão?

Estas são algumas das questões que o professor Renato Noguera discute nesta obra, que contém roteiros de reflexão, referências a autores fundamentais e propostas curriculares práticas.

Fonte: Pallas Editora

30 de julho de 2016

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27 de julho de 2016

Dica de livro: Circo de pulas


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O novo livro do autor traz contos onde personagens surgem e ressurgem em histórias díspares, se cruzando num  Rio de Janeiro caótico, com suas vielas, praias, becos e favelas. As tramas de “Circo de Pulgas” surgiram em momentos distintos, no entanto, ao serem reunidas formaram uma antologia que nos remete a um mosaico único, podendo-se incluir os primeiros contos escritos pelo jovem Manto Costa (‘Treze Copos’ e ‘O círculo’). Conduzido por uma personagem que ora nos lembra as desventuras dos heróis desvalidos da Beat Generation para logo depois nos remeter aos narradores

clássicos, “Circo de Pulgas” nos fala da desordem, das alegrias, dos amores e do caos da vida de uma população que vive à margem do Rio de Janeiro dos cartões postais.

Fonte: Editora Pallas

23 de julho de 2016

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