11 de março de 2015

Dica de livro: Cadernos negros



Em 1978, época marcada por uma série de protestos estudantis e greves, surgiu o primeiro volume da série "Cadernos Negros", que contava com os poetas Henrique Cunha Jr., Angela Lopes Galvão, Eduardo de Oliveira, Hugo Ferreira, Celinha, Jamu Minka, Oswaldo de Camargo e Luiz Silva (Cuti). Desde então, foram sendo publicados anualmente um volume, alternando poemas e contos em estilos diversos. Através de um grande retorno do público e da crítica, com o passar dos anos a publicação pode crescer e atingir mais gente, tornando-se um importante veículo da literatura afro-brasileira. 


Em 1982, data da publicação número 5 dos "Cadernos Negros", as reuniões que tinham como objetivo discutir a publicação dos livros acabaram gerando o grupo Quilombhoje, com os poetas Clóvis Maciel, Luiz Silva (Cuti), Cunha, Márcio Barbosa, Esmeralda Ribeiro, Francisco Mesquita, Jamu Minka, José Alberto, Miriam Alves, Oubi Inaê Kibuko, Tietra e Regina Helena. Embora o grupo Quilombhoje tenha passado por diversas crises e alterações em sua formação, ele ainda está ativo e publicando os "Cadernos Negros". Assim, através do Programa Nacional de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura (MinC), o grupo conseguiu lançar uma antologia com os melhores poemas e contos publicados nos volumes 1 ao 19 dos Cadernos, o que deu origem a dois livros: "Cadernos Negros: os melhores poemas" e "Cadernos negros: os melhores contos".

As lutas por liberdade no continente africano, que levaram à independência de diversos países africanos de língua portuguesa, iniciadas na década de 1970 foram as maiores motivações para a criação dos "Cadernos Negros". Assim, o maior objetivo presente nos livros iniciais (que fazem parte dessa coletânea lançada pelo MinC) era trabalhar a relação entre literatura e as motivações sócio-políticas. Assim, os poetas presentes nessas antologias deram voz à população negra em sua luta contra a desigualdade racial e social.

Através da literatura, pretendia-se incentivar uma visão crítica sobre a imagem do negro no Brasil, que era visto apenas como mão-de-obra, “coisa ruim” ou objeto sexual. Através dessa visão crítica dos preconceitos enraizados na sociedade brasileira, pretendia-se reverter a imagem negativa com que o negro aparecia na literatura nacional.

Por muitos anos, tentou-se demonstrar uma suposta inferioridade do negro em relação ao branco por meio da literatura ridicularizando características físicas, sociais e intelectuais dos escravos negros como forma de legitimar a escravidão. Porém, através da formação dos quilombos e tantos outros movimentos sociais ao longo da história, o negro brasileiro conseguiu perpetuar a cultura e religião africanas no Brasil. Há de se dizer, porém, que estes anos de exclusão e segregação social deixou inúmeras marcas na sociedade brasileira ainda hoje no século XXI. Dessa forma, dentro de uma sociedade que não consegue se admitir preconceituosa, o nascimento de uma literatura negra forte dá ao povo uma arma na luta contra a desigualdade racial e social. 

Texto retirado na íntegra do site Guia do Estudante
Leia, originalmente aqui


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