1 de junho de 2016

Dica de livro: A gramática da Ira

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Malcolm X, Ralph Ellison, Carlos Moore, Lima Barreto, Luís Gama, Abdias do Nascimento…Estes e outros pensadores da negritude permeiam a Gramática da Ira.  Escrito ao longo de uma década, é o primeiro livro do poeta, professor e militante Nelson Maca, 49 anos, que reúne um conjunto de poemas que dialogam com esta tradição literária  e  atualizam  o debate sobre o conflito racial brasileiro. 

Com prefácio assinado pelo escritor e ativista cubano Carlos Moore, a Gramática da Ira traz 56 poemas, que, segundo Maca, de maneira geral procuram refletir seu trajeto desde a inocência e alienação até a tomada de consciência e respectivo posicionamento com relação às questões raciais. Textos como Calma Rapaz, Moleke de Engenho, Instinto de Negridade e Malcolm Disse, alguns deles já bem conhecidos, principalmente pelos frequentadores do Sarau Bem Black, recital poético-musical idealizado e coordenado pelo autor há quase seis anos.
A partir da ideia central de como o racismo se estrutura na nossa sociedade e interfere na subjetividade negra, Maca vai traçando sua teia poética. “Procuro inserir a minha voz, ou seja, a voz de meu poema, no grande debate em torno da negritude, principalmente em seus desdobramentos do século XX”, afirma. Um dos mecanismos que utiliza para isso são as muitas citações, dentro e fora dos poemas. “O que busco é um diálogo, de forma que meus poemas sejam apenas uma das vozes no conjunto das reflexões que o livro traz”, completa.
Cada uma das nove partes do livro é aberta com uma referência direta a um desses pensadores, estabelecendo o eixo temático daquele bloco de poemas. Por exemplo, o capítulo Matança – com textos sobre religiosidade – traz a citação da Ialorixá Mãe Stella de Oxóssi: “A verdadeira guerra santa é aquela que destrói o que precisa ser destruído, a fim de construir o que precisa ser construído”.  Mas as falas e citações também estão diluídas dentro dos poemas, o que, reflete Maca, pode levar alguns a acusá-lo de plágio. “Isso variará de acordo com cada leitor e sua visão estética e filosófica da poesia”, diz Maca, que trata desta questão diretamente no último texto do livro, o Manual do Usuário da Gramática da Ira – que por sua vez é uma “reescritura interessada” do Manual do Guerrilheiro Urbano, de Carlos Marighella.
Adepto do conceito e estudioso da Literatura Negra, Nelson Maca diz que procura sempre imprimir negritude em seus poemas: na temática, na escolha do vocabulário e no ritmo. “Me interessa profundamente até aonde vai e como se dá o diálogo entre ética e estética na poética da negritude, na escrita literária e em sua reflexão crítica”, diz. O lançamento da Gramática no dia 14 de maio, no Espaço Cultural da Barroquinha, também reforça a intenção do projeto. A data tem ganhado força na militância negra como desconstrução do dia da abolição. Chamado “o dia seguinte”, aponta para a falta de um projeto governamental de inserção negra na sociedade pós-escravidão; já a Barroquinha é um espaço simbólico para a manutenção da identidade negra, por ser o marco na fundação dos terreiros de candomblé no Brasil.
O livro Gramática da Ira, que tem projeto gráfico do designer Welon Santos, o Penga,  é o primeiro do selo Blackitude. Além da venda no dia do lançamento (R$ 30,00), o trabalho está sendo comercializado na campanha TRANSE, através da qual as pessoas poderão adquiri-lo antecipadamente, a partir do mesmo valor (mais postagem), porém podendo colaborar mais, voluntariamente.
Sobre o autor

Poeta e professor universitário, tem 49 anos e nasceu no Paraná, mas mora em Salvador desde 1989. Ensina no curso de Letras da Universidade Católica de Salvador desde 1995.  É articulador do Coletivo Blackitude: Vozes Negras da Bahia, que realiza ações artísticas e de formação sócio-racial através das linguagens da cultura hip hop e afins há mais de 15 anos. É responsável pelo Sarau Bem Black, realizado há aproximadamente seis anos. Há mais de 30 anos promove e participa de eventos da negritude – seminários, workshops, cursos, shows, literatura e hip hop – na Bahia e no Brasil, tendo estabelecido parcerias com a Fundação Palmares, Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), Só Balanço Produções (BSB), Griô Produções (BSB), Balada Literária (SP), Cooperifa (SP), Nossa Conduta (RJ), APAFunk (RJ), Poesia Maloqueirista (SP), entre outros. Juntamente com o escritor paulista Berimba de Jesus, realiza há três anos o Encontro de Literatura Divergente (São Paulo, 2012-13-14). Nelson Maca participou das coletâneas literárias Suburbano Convicto I (SP), Pode Pá Que É Nóis Que Tá (SP), Sarau do Binho (SP) e Poesia Favela (RJ). Organizou os livros Tarja Preta, de Zinho Trindade (Edições Maloqueirista), e A Rima Denuncia, do rapper brasiliense GOG (Global) e escreveu a orelha do livro Colecionador de Pedras do escritor paulista Sérgio Vaz, da Cooperifa (Global).

Fonte: Gramática da Ira Wordpress
Leia o texto original aqui 
Texto editado por Carol Monteiro

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