22 de fevereiro de 2017

#DicaDoEspelho

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“O Olodum dignificava o brega, dava uma direção ao mangue, era o que eu sentia. O cotidiano era sempre um inferno de violência e sexo e sangue quente escorrendo entre as pedras e mau cheiro de merda e urina. Fumaça de lixo queimando dentro das carcaças dos casarões em ruínas, barulhos de bolas de sinuca batendo, cachaça sendo jogada na rua pro santo. Bitelo foi morto pelo melhor amigo com golpes de faca de cozinha na hora de dividir um roubo, Dico foi preso com maconha na subida do São Miguel e apanhou tanto que teve o baço estourado por um pisão de coturno, Clarinda perdeu um dedo na briga com Lídia Brondi, a travesti, que tava pegando o marido dela... vixe... Dois-Mundo bateu em dois polícia que tavam arregando a mesa de bicho dele e andava meio sumido da área”.

À guisa de epígrafe, transcrevo o trecho do conto “Infanto Juvenil V”, do livro em questão, porque é, também, o que sinto. É o que me toca, o que me recorda, me leva a infâncias na longínqua Rua da Palha e em outros lugares escrotos onde vivi. E é o que sinto ao ler “Muito como um Rei”, do escritor Fábio Mandingo. Quem não teve ou não passou por uma situação limite, daquelas que podem decidir o futuro entre céu e inferno? Mas da forma como Fábio escreve, a gente, mesmo que não tenha sentido, passa a sentir, pela simplicidade da linguagem, em que personagens e narrador demonstram habitar o mesmo limbo, a mesma atmosfera. A verossimilhança não deixa dúvidas, não permite questionamentos, só experimentar, ir junto ao fluxo de pensamento e ter vertigens, tantas quantas aguentar.

Perebas, perebas e mais perebas, de todos os tipos, com pus, lambida de cachorro, cutucada, arrancada com as unhas, e petróleo grudado na pele, após “caídas” nas águas fétidas da Praia de Cantagalo. Memórias, ancestralidades, lembranças, realidades que marcaram muitas pernas e mentes de quem por ali passou, quem viveu aquela realidade mais parecida com o limiar do inferno. Mas nem sempre a dor e a miséria são absolutas. 

No meio de todo esse assombro, tinha poesia: o sol escolhia descer primeiro na Igreja dos Alagados, depois lambia as pedras do Bate Estaca; e reflexão filosófica: “amor, igreja, polícia, gente rica, é tudo a mesma merda, tudo enganação”...

As memórias são ativadas durante toda a leitura do livro, é o cheiro de castanha assando no quintal, cascudos dados e tomados, meninos mais velhos chamando os menores de “meu gado”, e as arruaças e as brincadeiras de rua, as quedas na água da maré, ver televisão na casa da única vizinha onde havia um aparelho preto e branco (com plástico azul pra parecer colorida), chão de cimento vermelho, touca de meia-calça na cabeça de todas as mulheres, que não tiravam pra nada, filhos de mulheres e homens cachaceiros, tubaína, as festas de debutantes de “boa família”, no Clube Itapagipe, onde a personagem do conto não podia entrar por não possuir carteira de sócio... e a conga no pé, pra escola, pra festa, pra feira, pra onde quer que tivesse que ir, inclusive para festa de aniversário; jogo de botão, os namoros escondidos em que a visitante do interior beijava a rua inteira, acender palito de fósforo no cimento, saco de aniagem, acordar de madrugada quando a água chegava, limusine de quarenta lugares, agressão policial e roleta russa com a cara enfiada na areia. 

E a dor e a miséria e a falta de horizonte se aniquilam diante do grito “Sou artista, sou artista”. E, como “Todo Menino é um Rei”, a personagem também se declara rei, declara seu milênio, e, apesar dos apelidos de macarrão 18, tripa, lombriga, vara de tirar caju, a fome que lhe alimenta é a fome de mundo, que lhe moveu à vitória de ter tudo, Muito como um Rei.

Texto retirado na íntegra daqui
Fonte:Galinha Pulando 

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