10 de maio de 2017

#DicadoEspelho





O tapete voador é uma coletânea de contos em que Cristiane Sobral aborda temas como empoderamento negro, discriminação racial e colorismo. O livro apresenta diversas personagens femininas que lutam por superar as barreiras sociais para alcançar seus objetivos. 

A tessitura dos contos que Cristiane Sobral nos apresenta no inspirado “O tapete voador”, quando observadas com atenção para as tentativas de categorização, não consensuais, de uma “Literatura negra brasileira contemporânea de autoria feminina”, fornece, para nós leitores, alguns elementos importantes de análise do universo ficcional por ela bravamente erguido. Na perspectiva desta literatura, encontramos nas narrativas deste livro a valorização de diversos aspectos constituintes da identidade negra, e em especial, a inserção da mulher negra autora e personagem da vida e de seus abismos, o que não é pouco, tratando-se de uma literatura brasileira que tradicionalmente privilegia, como autores e personagens, homens brancos e seus discursos. O que Ióli, Bárbara, Olga, Teresa e as outras personagens deste livro trazem para o território da Literatura Brasileira é uma frente de luta e combate. Os personagens femininos, como também os masculinos, que transitam no universo ficcional de Cristiane Sobral são movidos por uma vastidão de desejos, às vezes singelos e em outras contundentes, indissociáveis do ato de viver, “desejo de se alimentar”, “desejo de mudança de vida”, “desejo de construir uma carreira artística mais engajada”, “desejo de se encontrar”, “desejo de viver plenamente a sexualidade”. 

A autora, que possui uma carreira de vasta experiência no teatro como atriz e dramaturga, constrói uma variedade de cenas em que o querer se traduz em ato, mesmo que a ação apresentada não resulte no que foi desejado pelo personagem – pois na luta de forças entre o engajamento e a literatura, a arte prevalece, fazendo com que, dona do seu lugar de escritora, seus contos possam nos surpreender com encaminhamentos que fogem do lugar comum da afirmação, derrapagens que uma literatura exclusivamente engajada, porém inocente, poderia experimentar. Nas tramas de textos e personagens que em alguns momentos se moldam aproximados de uma agressividade de sugestivos protestos, e em outros, de perspicaz ironia e ampla complexidade, temos em O tapete voador um belo exemplo de como a cena literária brasileira, ao tornar-se mais democrática, pode se enriquecer em criatividade, perspectivas, sensibilidade e sentido.

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